segunda-feira, outubro 20, 2008

Maus vencedores

Que eles eram os melhores do mundo e que era lógico que ganhariam a Copa do Mundo, eu imaginava.
Que vários deles integrariam a seleção do campeonato, eu desconfiava.
Até que o Falcão daria show e seria idolatrado pela torcida, me parecia barbada.
Agora, que esse mesmo Falcão me sairia tão mau vencedor, isso sim foi uma grande surpresa.


Falcão, o mau vencedor


Comemorar e gritar na frente dos espanhóis não me pareceria grande coisa, mas incitar a torcida a gritar "Chupa!" e mandar os derrotados irem embora de imediato, me parece, no mínimo, falta de educação.
Me lembrei das vaias no Pan, mas logo borrei essa imagem triste da mente. Afinal de contas, temos Copa por aqui em 2014 e temos que provar que somos civilizados.

Li em um fórum um comentário apaixonado de um torcedor dizendo que, como os "gringos" também fazem isso, os brasileiros tinham a obrigação de devolver na mesma moeda para não parecerem trouxas ou fracos.
Minha dúvida é simples: será que isso acontece mesmo ou é só mais uma manifestação do "complexo de vira-lata"?

Outra coisa: li uma entrevista onde o Falcão afirmava que tinha sido seguidamente provocado pelos espanhóis e que, ao confirmar a vitória, precisava se vingar.
Na minha opinião isso, além de pequeno e tacanho, é altamente rude e não contribui para que o Brasil e os brasileiros sejam respeitados pelo mundo.
Melhor seria ter respondido com alegria, carnaval e festa.


A merecida comemoração do título


Por último, uma semana antes, o mesmo Falcão, em entrevista ao Esporte Espetacular, dizia que se o Brasil não ganhasse o Mundial, ele abandonaria a Seleção.
Fiquei me perguntando se o Brasil começou com o Falcão e se vai deixar de existir quando ele se aposentar.

Resta um conselho ao "monstro" Falcão: um pouco menos de arrogância e um pouco mais de educação seriam muito mais adequados a um campeão do mundo como você, principalmente se quer ser respeitado fora do círculo de fanáticos e se não quer mais ouvir acusações de menosprexo aos adversários.

Pega mal ser assim, queridão!

UPDATE:

Como o Falcão é um mau vencedor, meus parabéns vão só para o resto da Seleção, principalmente para Tiago, Schumacher, Vinícius e Lenísio.

sábado, outubro 18, 2008

Suposição

Dia desses pensei no pior que poderia acontecer com a Seleção do Dunga e cheguei à triste conclusão de que pode estar chegando o dia em que o Brasil não mais será o único a participar de todas as Copas.

Já pensou o desastre nacional que seria isso?

Será que o povo sairia às ruas e exigiria as cabeças do Ricardo Teixeira, do Dunga, do Galvão Bueno e até do Pelé?

Pessoalmente, duvido muito de qualquer tipo de revolução.
Pelo pouco que conheço da natureza do ser humano e do povo brasileiro, o único que aconteceria seria um protesto tímido na mesa de bar, mais por conta da ausência de folgas nos dias de jogos do que por outra coisa.
Talvez este país não seja tão do futebol quanto dizem.

E enquanto isso, lá do outro lado dos Andes, o Chile derrubou a Argentina, um tabu de 35 anos e sua própria natureza de time perdedor e se manteve no G-4.
Isso me leva a pensar que, se a Espanha conseguiu finalmente ganhar alguma coisa, por que não acreditar que o Chile pode chegar à África do Sul?


A comemoração do gol chileno contra a Argentina


Si, se puede!

Como invejamos a Copa do Mundo

Este é bem antigo e não é meu, mas acho que tem a ver com o tema futebol, assim como tem a ver com muitos outros.

Folha de S. Paulo - 09/06/2006

Kofi Annan - Você pode estar se perguntando por que o secretário-geral das Nações Unidas está escrevendo sobre futebol. Mas a Copa do Mundo faz com que nós, nas Nações Unidas, morramos de inveja. Como o único jogo realmente global, praticado em todos os países, por todas as raças e religiões, é um dos poucos fenômenos tão universais quanto as Nações Unidas. Podemos até dizer que é ainda mais universal. A Fifa tem 207 membros. Nós temos 191.
Na Copa do Mundo, os países participam em termos equitativos. Duas qualidades importam nesse jogo: talento e trabalho em equipe
Mas existem outros motivos de inveja. Primeiro, a Copa do Mundo é um evento no qual todos conhecem seus times e o que eles fizeram pra chegar até lá. Todo mundo sabe quem fez um gol e como e quando ele foi feito, conhece quem perdeu a oportunidade de fazê-lo e lembra quem conseguiu evitar um gol de pênalti.
Gostaria que tivéssemos mais competições desse tipo na família das nações. Países competindo pela melhor posição na escala de respeito aos direitos humanos, um tentando superar o outro nas taxas de sobrevivência infantil ou de ingresso no ensino médio. Estados fazendo performances para o mundo todo assistir. Governos sendo parabenizados pelas ações que levaram àquele resultado.
Segundo, a Copa do Mundo é um evento sobre o qual todo o planeta adora conversar. Discutir sobre o que seu time fez de certo e o que podia ter sido feito diferente, sem mencionar o que o time adversário fez ou deixou de fazer. Pessoas sentadas em cafés em qualquer lugar, de Buenos Aires a Pequim, debatem intensamente os melhores momentos dos jogos, revelam um profundo conhecimento não só dos seus times, mas dos de outros países e falam no assunto tanto com clareza quanto com paixão.
Normalmente, adolescentes calados tornam-se, de repente, eloqüentes, confiantes e incríveis especialistas em análise. Eu gostaria que tivéssemos mais desse tipo de conversa mundo afora. Cidadãos engajados na discussão de como seu país poderia ter melhores desempenhos no Índice de Desenvolvimento Humano, na redução de emissões de carbono ou de novas infecções de HIV.
Terceiro, a Copa do Mundo é um evento que acontece num campo igualitário, onde todos os países têm a chance de participar em termos equitativos. Somente duas qualidades importam nesse jogo: talento e trabalho em equipe. Eu gostaria que tivéssemos mais dessa homogeneidade na arena global. Negociações livres e justas, sem a interferência de subsídios, barreiras ou tarifas. Todos os países tendo chances reais de desenvolver seus pontos fortes no palco mundial.
Quarto, a Copa do Mundo é um evento que ilustra bem os benefícios da interação entre pessoas e países.
Cada vez mais seleções nacionais contratam técnicos de outros países, que trazem novas formas de se pensar e jogar. O mesmo vale para os jogadores das mais diversas nacionalidades que, entre as Copas do Mundo, representam clubes em países distantes dos seus. Eles trazem novos atributos para seus novos times, crescem com a experiência e são capazes de contribuir ainda mais para seu país quando a ele retornam.
No processo, eles muitas vezes se tornam heróis nos países estrangeiros, ajudando a abrir corações e mentes fechadas. Eu gostaria que fosse igualmente simples para todos enxergarem que a migração humana em geral pode criar ganhos triplos para migrantes, para seus países de origem e para as sociedades que os recebem.
Esses migrantes não só constroem uma vida melhor para si mesmos e para suas famílias, mas também são agentes de desenvolvimento econômico, social e cultural nos países em que vão trabalhar e em seus Estados nativos. Quando retornam, inspiram os que ficaram com suas novas idéias e seus novos conhecimentos.
Para qualquer país, jogar na Copa do Mundo é uma questão de profundo orgulho nacional. Para países classificados pela primeira vez, como Gana, onde nasci, é uma questão de honra. Para aqueles que estão participando após anos de dificuldades, como Angola, promove uma renovação do espírito nacional. E para aqueles que estão divididos por conflitos, como a Costa do Marfim -cujo time na Copa é um único e poderoso símbolo de unidade nacional- inspira a esperança no renascimento nacional. Mas talvez o que nós mais invejamos na ONU é que a Copa do Mundo é um evento no qual vemos realmente os gols serem alcançados. E não estou falando somente dos gols que um país marca. Também estou me referindo ao gol mais importante de todos: estar representado lá, fazendo parte da família das nações e celebrando a humanidade comum a todos.
Vou tentar lembrar disso quando Gana jogar contra a Itália no dia 12 de junho. Mas claro, não posso prometer que vou ter sucesso.

KOFI ANNAN , 68, economista ganês, é secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas)